Opinião

Autor: editor Publicado em: 30-12-2010 16:48:44

POR CATARINA ALFAIA

Fonte: Marketeer

Edição de Novembro 2010

 

A afirmação é de Chris Arnold, criativo que trabalhou com mais de 100 marcas de topo em 15 agências diferentes ao lon­go dos últimos 20 anos. E de quem é a culpa do nível de criatividade actual? Da recessão e de clientes menos corajosos.

 

É "uma das aves raras mais criativas dos últimos tempos". Chris Arnold é assim apresentado no site que apoia a 20.ª edição dos Prémios Neurónio, uma iniciativa dos CTT em colaboração com a Associação Portuguesa das Agências de Publicidade, Comunicação e Marketing, que tem por objectivo valorizar os melhores trabalhos na área de marketing re­lacional. E porque o número de edições é redondo, o certame deste ano propôs-se não só eleger os melhores em 25 categorias diferentes, como relembrar as "aves raras" das edições anteriores dos Prémios Neurónio, num conjunto de acções levadas a cabo no Facebook.

 

Chris Arnold, creative partner da Creative Orchestra e autor de "Ethical Marketing & The New Consumer", voou até Lisboa a 10 de Novembro para protagonizar a conferência que integra a Cerimónia de Entrega de Prémios Neurónio. À marketeer, falou em antecipação sobre temas como criatividade e marketing ético.

 

Tendo em conta a sua experiência de 20 anos em publicida­de e criatividade, o que diria que mais se alterou?

Tudo. Os media desenvolveram-se e hoje temos mais canais do que nunca para estabelecer ligações com os consumidores. Foi tam­bém introduzido um "4.º elemento" - a tecnologia -, que se juntou à estratégia, à criatividade e aos media. A tecnologia, e sobretudo a internet, transformou a forma de comunicar em sociedade, a forma de pensar, de estar e de consumir informação. Para os publicitários, isso representa uma nova forma de envolvimento com os consumi­dores. Consumidores estes que têm agora o poder de dizer às marcas o que devem fazer.

 

Numa perspectiva negativa, estamos naquilo que se chama "So­ciedade Numérica", aquela em que tudo é avaliado em números em vez de valores. Desde a educação aos serviços de saúde, os desempe­nhos são medidos numericamente. Mas na realidade (e não em rea­lidade virtual) estes números representam muito pouco. Precisamos de regressar aos valores reais, fazer uso do senso comum e colocar uma questão simples: "Vende?"

 

Existe um modelo ideal para vender criatividade?

Não. Depende da pessoa ou empresa a quem se está a vender. Muitos clientes têm medo da criatividade porque ela exige que se assumam riscos que a maioria das empresas detesta assumir. O se­gredo é conhecer o cliente e os seus valores, e vender-lhe a criati­vidade de uma forma que o faça sentir-se seguro. É por isso que a investigação é tão utilizada.

 

Já aos clientes corajosos, não é preciso vender…

 

Trabalhou em diversas agências, com vários tipos de pes­soas. Há diferenças significativas nos processos criati­vos de hoje?

Citaria dois filmes: "Fast and Furious" e "Gone in 60 Seconds". Hoje, tudo é um pouco frenético… Temos menos tempo, orça­mentos mais reduzidos e menor vontade dos clientes de fazer as coisas como deve ser. Os clientes querem rapidez e baixo custo.

Os criativos de hoje têm de pensar rapidamente, já não existem fases de incubação e arte. No digital ainda é tudo pior… O que nos leva a uma cultura de rapidez e fraco planeamento.

Há duas formas de trabalhar nos departamentos criativos: o modelo competitivo e o comunitário. Muitas agências gostam de cultivar uma cultura competitiva, mas isso gera um ambiente pou­co amistoso. Tentamos ter todas as pessoas a trabalhar juntas e a apoiarem-se mutuamente, o que permite produzir melhores resul­tados criativos e que todos vivam mais felizes.

  

Significa que houve alterações nos perfis dos criativos?

Actualmente, os criativos precisam de ser versáteis, uma vez que trabalham suportes desde TV e imprensa, a embalagens, POS e digital. É preciso que pensem rápido, também. É igualmente ne­cessário estarem mais informados sobre todo o negócio à volta do que está a ser feito.

Infelizmente, muitas faculdades não têm mantido o devido con­tacto com as necessidades desta indústria. Demasiados estudantes estão mal formados…

 

Que más práticas apontaria ao trabalho criativo actual?

Há pouco engenho e arte. Poucos escritores escrevem bem e poucos directores de arte sabem de tipografia. Há dias em que se deve deixar inspirar, esquecer o fato e a gravata, quebrar a rotina, falar com desconhecidos, transformar-se num empreendedor, divertir-se e ser construtivo.  

 

Chris Arnold

Foi director criativo da Saatchi & Saatchi e da Draft Worldwide, tendo trabalhado mais de 100 marcas de topo em 15 agências.

Actualmente, é creative partner e co-fundador da agência Creative Orchestra. É autor do livro "Ethical Marketing & the New Consumer", estando neste momento a preparar o seu novo livro - "THUNK, a different way to think". Tem participado em inúmeras publicações, nomeadamente FT, "Creative Review", "Impact", "The Times", "Third Sector", "Brand Strategy", "Canvas8", participando semanalmente no ethical blogue da Brand Republic.

Antigo membro dos quadros da DMA, foi também presidente do Agency Council e Creative Council.

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